segunda-feira, 30 de abril de 2012

ILÍADA (VV. 431-442, CANTO V): ENTRA EM TI MESMO, DIOMEDES

Enquanto os deuses do Olimpo conceitos, desta arte, trocavam,
insta Diomedes, o herói gritador, contra o príncipe Enéias.
Ainda que houvesse notado que Apolo o amparava cuidoso,
a um deus tão grande não tinha receio de opor-se, ambiciando
somente a Enéias matar e das armas fulgentes privá-lo.
Por vezes três arremete sequioso de a vida tirar-lhe;
mas por três vezes no escudo brilhante de Apolo ele bate.
Quando, porém, pela quarta avançou, qual se fosse um demônio,
com voz terrível lhe diz Febo Apolo, o frecheiro infalível:
    ‘Entra em ti mesmo, Diomedes; afasta-te; é absurdo pensares
que és como os deuses; em caso nenhum podem ser comparados
os moradores do Olimpo com os homens que rojam na terra’.

Trad. Carlos Alberto Nunes

A forma como o mito se expressa na antiga poesia grega, na qual se inclui o teatro, não parece ser muito diferente de como a concebiam os povos primitivos: deuses de muitos caprichos, sedutores, explosivos,  vingativos, juízes arbitrários, pareciam crianças com super-poderes...  Por outro lado, havia muito refinamento em como a poesia estabelecia a relação entre o homem e a realidade, relação esta que se fundamentava, por sua vez, no modo como o homem se posicionava diante dos deuses. Ao contrário das tolices “laicistas” atuais, a relação entre crença nos deuses e razão não era uma relação absurda, pelo contrário, era o indício mesmo de saúde mental, da integridade da razão.
A reprimenda de Apolo é uma perfeita ilustração desse princípio: “Entra em ti mesmo, Diomedes”. O que se pode dizer, afinal, a um sujeito que enfrenta um deus, ainda mais o frecheiro Apolo, para matar outra pessoa, se não pedir que “entre em si mesmo”? Ou por outra, que “tenha juízo”, ou no bom dátilo introdutório de Frederico Lourenço, porém sem a mesma força persuasivo-poética da tradução de Nunes, “Pensa, ó Tidida, e cede!”?
Seguindo esquema parecido, há uma passagem, entre várias outras, memorável do livro I das Metamorfoses de Ovídio, na qual descreve  a impulsividade sangrenta de Licáon, de cujo nome surgiu o termo licantropia e de cujo mito saíram as narrativas sobre lobisomens até desembocar nas várias seqüências do filme Crepúsculo. Num verdadeiro festim diabólico Licáon matava seus reféns para servir-se de suas carnes e também para servi-las aos convidados. Tendo  isso chegado aos ouvidos de Júpiter, este desceu à terra e, sob forma humana, foi à casa  de Licáon para se certificar das informações macabras que recebera. Apesar do disfarce, alguns convidados desconfiam tratar-se de um deus e começam a fazer preces, enquanto o anfitrião, fazendo pouco caso de tal reverência, resolve tirar a prova tentando matá-lo para devorá-lo em seguida, não sem antes espedaçar um cativo, jogar-lhe os pedaços num recipiente com água fervida para cozinhá-los:

Mal isto serviu à mesa[refere à carne de um refém],
eu, com a chama justiceira,]
desmoronei a casa sobre os Penates, dignos de tal senhor.
Ele foge espavorido. Achando-se no silêncio dos campos,
põe-se a uivar e em vão tenta falar. Dele próprio o focinho
colhe a raiva, e, com a habitual sofreguidão de carnificina,
volta-se contra os rebanhos; ainda hoje rejubila-se com sangue.
As suas vestes dão lugar aos pêlos, os braços às patas.
Torna-se lobo, mas conserva traços do seu antigo aspecto:
o pêlo grisalho é o mesmo, a mesma violência na face,
o mesmo brilho nos olhos, a mesma imagem de ferocidade. (vv. 230-240)

trad. Paulo Farmhouse Alberto

Em tempo, este verso e vários outros deste longo poema, antecipa de forma magistral nas letras o que no cinema é conhecido como efeito especial(põe-se a uivar e em vão tenta falar// As suas vestes dão lugar aos pêlos, os braços às patas.).
Voltando a Homero, outro achado de gênio antecede a reprimenda apolínea:

Quando, porém, pela quarta avançou, qual se fosse um demônio.

Na tradução de Frederico Lourenço,

Mas quando pela quarta vez se lançou como um deus.

Lourenço ter usado a expressão “deus” em vez de “demônio” não altera em nada o sentido do verso, porque há algo de demoníaco no homem que age como um deus e  está em perfeito acordo com o verso  “é absurdo pensares/que és como os deuses”, da tradução de Nunes. Por outro lado, a descrição de Lourenço, a um só tempo clara e sonoramente vacilante nas primeiras sílabas, só ganha fluidez rítmica a partir do ótimo “se lançou como um deus”, perdendo com isso a força que poderia ter com o uso do hexâmetro. Os seis pés métricos do original reproduzidos com muita competência e naturalidade por Nunes,  além de ritmicamente evocar a nossa “arte maior”, lembra a marcha, como diriam os portugueses, “imparável”, audaciosa e decidida de Diomedes.
Esse impulso demoníaco, irrefreado, mas não contra os deuses, posto que lhes fuja ao controle, encontramos também na Oréstias de Ésquilo, mais precisamente na peça Eumênides, terceira e última parte, em que falam as Fúrias:

(...)Sou impelida
pelo sangue de uma desventurada mãe
 e continuarei a perseguir Orestes
 como se fosse um cão de caça em sua pista!(vv.302-305)

O ofício que o destino inexorável
fixou e nos impôs eternamente
 é perseguir todas as criaturas
 lançadas por sua própria demência
na via tortuosa do homicídio
 até descerem ao profundo inferno(vv.449-454, trad. Mário da Gama Cury) 


As Fúrias ou Erínias, espécie de justiceiros implacáveis, entram em ação para castigar os irmãos Orestes e Electra que mataram a mãe Clitemnestra. Ao que tudo indica, são como que acionadas por uma força que elas mesmas parecem desconhecer, algo como um destino inexorável de que os próprios deuses são vítimas, e caso sejam impedidas de castigar são levadas a arrasar a terra. Ser acionadas dá-lhes uma característica oportunista ou, por outra, basta o crime acontecer que elas aparecem, sem ser necessário haver nenhum tipo de conjuração, exatamente da mesma forma que Mefistófeles surge para Fausto nesta  eloqüente passagem de Doctor Faustus de Marlowe:

Faustus: Did not my conjuring speeches raise thee?
Mephistophilis: that was the cause, but yet per accidens;
                          For,  when we hear one rack the name of God,
                          Abjure the Scriptures and his Saviour Christ,
                         We fly, in hope to get his glorious soul(…)

[–Não surgistes das minhas conjurações?
 – Digamos que sim, porém acidentalmente.
Basta-nos ouvir uma pessoa imprecar contra o nome de Deus,
renegar as Escrituras e Cristo, seu Salvador,
que logo surgimos, esperando, assim, capturar-lhe a alma gloriosa]

Essas criaturas são escravas da sua própria natureza.  As Erínias, no caso as Fúrias, carregam no nome um significado sintomático: as que perseguem com furor. A forma, aliás terrível, como surgiram parece dizer muito de seu caráter, pois nasceram do sangue caído sobre Géia, quando Urano teve seus testículos cortados por Crono.
(Vale lembrar que aparecem num romance contemporâneo Les Bienveillantes(2006) de Jonathan Littel nas personagens dos investigadores da Kripo, Wesser e Clemens, que insistem em perseguir o oficial nazista Maximillien Aue para puni-lo pelo assassinato brutal da mãe e do padrasto, mesmo em meio de escombros e nos momentos mais tensos da Segunda Guerra, como o famoso bombardeio em Berlim)
As erínias, nas figuras de Megera, Aleto e Tesífone, também aparecem na Divina Comédia de Dante cuja descrição ilustra a mais completa falta de controle e os impulsos desenfreados ou “imparáveis”: “Con l’unghie se fendea ciscuna il petto(v. 49, c. IX, Inferno)”, ou na tradução de Vasco Graça Moura “Com a unha as três fendem o peito”.   E, para encerrar, no  25º  canto, aparece a figura de Vanni Fucci, um ladrão que roubava os ornamentos da igreja que, de tão fora de si, lembra o impetuoso Diomedes:

Al fine de le sue parole il ladro
le mani alzò con amendue le fiche,
gridando : Toglie, Dio, ch’a te le squadro !

“Finda a fala, o ladrão em desafio
ergueu as mãos, disse fazendo figas:
‘Toma, Deus, para Ti é que as envio!’.”(vv. 1-3, trad. Jorge Wanderley)


Naturalmente, as figas feitas contra Deus é o equivalente à insistência de Diomedes em matar Enéias a despeito da defesa de Apolo. Se este, porém, não se encontra presente para dizer “Entra em ti mesmo, Vanni Fucci!”, por outro lado a imediata ação de uma serpente parece traduzir em poderosa imagem as advertências apolíneas:

Da indi in qua mi fuor le serpi amiche,
perch’una li s’avvolse allora al collo,
come dicesse ‘Non vo’ che piú diche’

Passei a ver as serpes como amigas;
logo uma lhe enrolou seu colo e acima
como a dizer-lhe: ‘Que nada mais digas’;(vv. 4-6, trad. idem)