domingo, 31 de julho de 2011

Uma narrativa poética de Alphonsus

A CATEDRAL
(Lenda do Báltico transplantada para Portugal) – Alphonsus de Guimaraens, in Kiriale, Poesias, ed. Ministério da Educação e Saúde, 1938, pp. 31-34.

Ignota landa astral da Bem-Aventurança,
Já não há sobre a terra o que eu chamo esperança
            JOSÉ SEVERIANO DE RESENDE PRESBIT.

De mon espoir je suis tombe...
Espoir ! Ô tombe de ma vie !

            JAQUES SYMBOLE, GRAND POÈTE INCONNU

                                                           Ao dr. Dario da Silva




Dona Guiomar tombou de giolhos,  1
– Dobravam tôdolos sinos –
E no horizonte dos seus olhos
   Dois Anjos cantaram hinos.

As mãos em cruz, a alma petrina       5 
   Suspendendo os alvos peitos...
Que amargura quasi divina
    Nos seus olhos contrafeitos!

Era no tempo em que a moirama     9
  Dominava a Portugal.
Como rezaste, nobre Dama,
  Nessa noite de Natal...

“Senhor meu Deus onipotente,                  13
    Ouvide a voz de uma louca...”
(Bem se via que uma alma crente
    Te soluçava na Bôca.)

“A Catedral que vos levanto            17
  É feita de pedra e cal...
Senhor Deus, que eu exista enquanto
   Existir a Catedral!”

Foram palavras céu arriba,              21
  Clamaram no mar profundo...
Ouviu-las Deus, e um velho escriba
   Anotou-as cá no mundo.

E mesterais dos mais valentes                   25
   Vão começando o trabalho:
Qual quebra as pedras em torrentes,
   Qual as prepara com o malho.

Tamanho esforço sobrehumano           29
  Põe de pé a Catedral,
E já passara mais um ano,
  E outra noite de Natal.

Não têm mais conta os dobrões de oiro      33
   Que a nobre Dama gastou na Igreja.
Fôsse embora mais de um tesoiro,
  Eis acabada a peleja.

Dona Guiomar está contente,                  37
  Tôda ledice na face,
Por não morrer ri-se da gente...
  Não houve quem la invejasse.

Passaram muitos longos dias,               41
  Meses, anos afinal.
Quantas pungentes agonias
  Desde a noite de Natal!

E fica velha a nobre Dama,              45
  Tôda cheia de cansaço...
Não se levanta mais da cama,
  Nem pode dar mais um passo.

Lastima o tempo em que era forte,       49
  Benfadada e benquerida.
Só reza agora, pede a morte,
  Só por ter eterna vida.

Como o Senhor há-de ouví-la,         53
  Se não tomba a Catedral?
– Dorme, Fidalga, bem tranquila,
  Que não tem cura o teu mal.

E para ela um caixão foi feito:           57
  E nele o corpo deitando,
Dona Guiomar, com as mãos ao peito,
  Pôs-se esperando, esperando...

Séculos passam no infinito,            61
  E ela está sempre deitada,
Sem um gemido, sem um grito,
  Dos olhos fitos sem ver nada.

Junto à Dama quasi-defunta                65
  Reza um padre no Natal,
Dona Guiomar então pergunta
  Se tombou a Catedral...


Eis um poema brasileiro que trata de uma lenda medieval. Lembra o melhor romantismo europeu que contava com um recuo temporal mais amplo, ao passo que os nossos românticos  não tinham nada mais antigo que tratar senão de índios.
Para ilustrar uma lenda medieval, Alphonsus de Guimaraens se vale da dicção de época. Na verdade, uma imitação, pois se levasse essa dicção a fundo só poderíamos ler o poema com ajuda de filólogos. São 17 estrofes e cada uma se alterna entre dois versos octossílabos – metro muito usado na poesia cortesã – e dois heptassílabos dispostos de forma cruzada ou entrelaçadas, de acordo com suas respectivas rimas. Quanto à narrativa em si, a voz do poema não se limita a contar uma história, mas por vezes rompe a cortina, “esquecendo” o leitor para se dirigir à própria personagem(vv. 11-12, 15-16, 55-56.), mas sem interferir no seu destino, limitando-se a testemunhar ou lamentar sua dor.  O vocabulário é arcaico até mesmo para o fim do século XIX, como “giolhos” em vez de “joelhos”(v.1), além do recurso à eustomia: “todolos”(v.2); “quem la invejasse”(v.40). Reparem que esse recurso não foi usado em todos os casos, pois se no 23º verso podemos ler “ouviu-las” logo em seguida lemos “Anotou-as”. Provavelmente um modo de evitar a cacofonia(anotôlas) que arrepia os cabelos de muitos poetas e críticos atuais, mas que estava longe de ser a preocupação dos grandes poetas do passado, entre os quais Camões com o famoso “Alma minha...” e que não teve pudor de inventar “Amarei-lo” para brincar com a palavra “amarelo”.
Manuel Bandeira, um mestre na arte da emulação, entre outras, da poesia medieval(“Mha senhor, com’oje dia son”) escreveu: “Nesta semana de Congresso Eucarístico tenho rezado bastante, não repetindo as orações que aprendi menino – o padre-nosso, a ave-maria, a salve-rainha – mas relendo os versos de Alphonsus de Guimaraens....”. De fato, essa frase diz muito a poesia do poeta de Mariana(“É a lua... E a lua é Nossa Senhora,/são dela aquelas cores de Santa!”).  “A Catedral”, porém, não é propriamente convidativo à prece. Pelo contrário, é garantia de noites seguidas de pesadelos e bem mais incômodos que a idéia de elfos, dragões e toda sorte de monstrinhos do imaginário medievo  perseguindo crianças e virgens para matá-las.
Vemos aqui a experiência da eternidade terrena como algo não muito agradável, pior ainda se não houver o alento da juventude ou de um corpo sadio, fazendo com que a infeliz dona Guiomar viva, por assim dizer, os processos de degradação da morte sem nunca ser atingida por ela.
Mais: Dona Guiomar faz um tipo de pedido que geralmente não é dirigido a Deus, a Quem se pede normalmente vida longa e com saúde, mas nunca uma vida tão longa que se confunda com a eternidade e esteja tão colada à existência de uma Catedral(Senhor Deus, que eu exista enquanto/ Existir a Catedral!).  O que intriga mais ainda é que esse pedido tenha sido atendido(Foram palavras céu arriba,/ Clamaram no mar profundo.../Ouviu-las Deus, e um velho escriba/  Anotou-as cá no mundo.), o que levanta algumas questões: foi Deus ou foi o “outro” quem, também ouvindo a prece, resolveu se adiantar e atender prontamente ao pedido? Ou ainda, Deus realmente atendeu ao pedido e assim a lenda, sendo medieval, é contaminada pela cultura pagã, em que toda sorte de prece é atendida? Se Deus atendeu à dona Guiomar, tê-lo-ia feito como se estivesse submetendo-a a uma provação? Teria, assim, sido punida severamente pelo seu orgulho e falta de humildade(Dona Guiomar está contente, /Tôda ledice na face,/Por não morrer ri-se da gente.../ Não houve quem la invejasse.)? Isso posto, foi seu castigo ter sua prece atendida?


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um bate-papo em "Num faz cabimento"

Enquanto preparo um comentário a um dos mais belos poemas-narrativos fantásticos da nossa língua, ficai com o bate-papo entre este que vos escreve e a turma do Num faz cabimento, nos estúdios da Mansão Wayne(à qual se chega via Linhas Amarela ou Verde da Wayne Corporation). Uma conversa regada com “whisky e cerveja”(e o auxílio luxuoso da pizza), e cujo barulho dos copos e garrafas me faz lembrar a maravilhosa banda sonora da série Mad-men, onde a música das pedras de gelo nos copos devidamente abastecidos encanta os ouvidos, música essa que dedico ao saudoso e queridíssimo Mussum. Ao contrário (será?) da grande série norte-americana(viva a América!), as bebidas não são cenográficas (ou tirei a sorte grande de não sê-lo no dia), o que se poderá notar no qüinquagésimo oitavo minuto quando criei a mais revolucionária tipologia métrica que abalará para sempre a história da poesia brasileira (quiçá, com mais audácia que a Poesia Concreta): “alexandrino maior” quando o correto é, obviamente, “redondilha maior”. Minha presença baiana reforçou o sistema de cotas em um programa no qual, além de um “moreno escuro” (e alma do programa) Ivan Silva, já contava com a ilustre presença do também baiano (de Saalvaadôo, com direito a acarajé e abará) Dionísio Amêndola (o right wing mais querido da família brasileira), figuras essas bem integradas aos representantes da elite quatrocentona Diego Blanco (da left wing e mantenedor entusiasmado do saudoso jingle da campanha eleitoral de Kassab) e J. P. Bueno (o locutor principal e moderador do programa e que, por vezes, contribui com a boa bagunça que só é possível nas grandes democracias). Segue, pois, o link do programa que por vezes me recorda o primeiro e grande Pasquim(c. 1969-1974). That’s all folks.